terça-feira, 26 de abril de 2011

O amor e a perfeição...

É imprescindível, em alguns momentos, parar um instante, refletir acerca das imagens que diariamente construímos em torno de nossas relações e, assim, nos permitir ao questionamento: “pode existir um amor perfeito?”.

As nossas idealizações dizem que sim. Tal ideia parece responder ao desejo que o ser humano tem de encontrar no outro a solução para o que nele é imperfeito. Na busca da cura das consequências de nossas escolhas e, principalmente, de nossa precariedade, procuramos buscar nas pessoas o remédio para as nossas incompletudes.

Na filosofia aprendemos a conceituar o termo perfeição como aquilo que não necessita complemento, mudança ou transformação, isto é, o que está pronto. Nesta perspectiva, chegamos à conclusão que nenhuma pessoa pode ser considerada perfeita, afinal, somos todos inacabados. Eis a frustração daqueles que esperam encontrar pessoas perfeitas com as quais possam construir suas relações humanas.

Não deixamos de sentir as consequências de nossas imperfeições, o que nos leva a assumir o processo de aperfeiçoamento, a partir das oportunidades de superação que encontramos pela vida. Assim, quando encontramos o outro, devemos considerar que ele também está vivenciando este processo. Mesmo sendo inacabados, imperfeitos, não estamos condenados a permanecer estáticos diante da vida e das experiências nela contidas. Não estamos condenados a viver eternamente com os nossos defeitos. Só assim, num encontro de imperfeitos, nasce o verdadeiro desejo de juntos lapidarem suas humanidades, buscando uma harmonia, uma integração a qual podemos chamar de amor.

Mas que para isso ocorra é preciso deixar de lado nossas idealizações. Porém somos constantemente levados a questionar a imperfeição do outro. É uma contradição existencial. Não somos perfeitos, mas queremos realidades perfeitas. A idealização nos retira do contato com a realidade. O conflito se estabelece ainda mais quando percebemos que pessoas que se sabem imperfeitas estão constantemente buscando pessoas perfeitas. Começam a projetar umas nas outras suas necessidades, seus vazios. É a partir disso que os cativeiros são criados, e deles nascem as invariáveis, os condicionamentos.

A pessoa inicia um processo de invenção do outro. E todos sabem que inventar é uma forma de estabelecer cativeiros, uma vez que a disposição de si fica ameaçada. Aquele que inventa (idealiza) retira do inventado o direito de ser o que realmente é. Idealizar é uma forma de negar a realidade. O que passa a importar não é mais o que se é, mas a máscara que se usa. Como escreveu Fernando Pessoa: “Fiz de mim o que não soube, e o que podia fazer de mim não o fiz. O dominó que vesti era errado. Conheceram-me logo por quem não era, e não desmenti, e perdi-me. Quando quis tirar a máscara, estava pregada à cara. Quando a tirei e me vi ao espelho, já tinha envelhecido”. O perigo deste cativeiro é que podemos nunca mais sair dele. A não autenticidade abre portas para os equívocos. Os outros nos idealizam e nós permitimos a idealização e suas inadequações. E, quando desejamos dizer a verdade, nem sempre temos a possibilidade.

O amor perfeito não existe, porque também não existem pessoas perfeitas. O que temos é a possibilidade de construir relações verdadeiras, autênticas. Máscaras não servem para mais nada além de esconder o que realmente existe. Enfeitar a realidade. Relações baseadas na verdade, no que concretamente existe, podem chegar mais próximo do que conhecemos como perfeição. Idealizações criam cativeiros que podem tornar-se definitivos. Mas podemos escolher em qual universo queremos viver o amor, nas ideias ou na humanidade. Temos a possibilidade de eternizar em nós o que realmente vale a pena e esquecer definitivamente aquilo que não vale...

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Quando eu sinto...

Ah! Como eu queria poder sentir calado. Mas minh’alma não cabe cá dentro, quer sair e gritar aos quatro cantos o que sente. “Sentir” é expressão usual, pois não há como denominar o que se passa com a alma. Sinto tal fenômeno na carne. No coração. Falar, expressar o que se passa, é a tentativa de remediar a dor. Ainda assim preciso aprender a sentir calado. Mesmo que haja uma inundação de lágrimas vinda dos meus olhos cansados, queria muito que eles não mostrassem o quanto eu sofro com as dores do “parto”. Partir dói muito. Maior dor é a de ser partido. Agora entendo o quanto dói. Até poderia pedir sincero perdão pelas cobranças feitas indevidamente, não considerando a dor alheia. Dor da qual não imaginava a intensidade.

Algo me consola? Não! Algo me faz aceitar os desdobramentos da vida. Escolhas. A vida é feita de escolhas. E nem sempre somos escolhidos. Eis a beleza inatingível da liberdade. E a liberdade é a única posse digna de amor. Eu amo a liberdade cuja ação fere minh’alma. Feridas são naturais naqueles que se arriscam no grandioso campo da liberdade. Se hoje sinto esta imensa dor é porque um dia escolhi, dotado da divina liberdade, arriscar-me numa escalada cujo resultado era certo. Mas arrisquei assim mesmo. A altura me venceu. A dificuldade do terreno me venceu. A falta de ar me venceu. A fraqueza humana me venceu. E eu despenquei diretamente ao chão. Feri-me. Mas, pela primeira vez em minha vida, fui suficientemente livre para arriscar-me. Não considerando as conseqüências. Valeu a pena.

Como me sinto? Inteiramente destruído pela frustração de não chegar ao topo da montanha. Há possibilidade de reconstrução? Sempre há! Seguirei firme até onde a esperança me levar. Quando não mais houver esperança serei mais um na multidão daqueles que a procuram. Mas enquanto ela existe... ainda procuro aprender a sentir calado.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

A Luz e o Amor



Sem dúvida, entre todos os símbolos e objetos, o amor prefere a luz das velas. A luz ilumina e revela o oculto. É isso que desejamos da pessoa amada: que ela seja uma luz suave que nos ajude a suportar o terror que a escuridão esconde. Iluminado pela luz paciente e singela do amor, o escuro já não assusta tanto. Os medos se desvaem em saborosa e confusa coragem.
A luz revela o amor que a noite esconde.

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