terça-feira, 25 de maio de 2010

Oráculos da verdade

Por Frei Betto

Cada vez mais, as pessoas deixam de pensar por sua própria cabeça.


O filósofo alemão Emmanuel Kant, num de seus brilhantes textos – “O que é o Iluminismo?” – sublinha um fenômeno que na cultura televisual que hoje impera é cada vez mais generalizado: as pessoas deixam de pensar por si mesmas. Preferem se colocar sob proteção dos “oráculos da verdade”: a revista semanal, o telejornal, o patrão, o chefe, o pároco ou o pastor. Esses os guardiões da verdade que velam para não nos permitir incorrer em “equívocos”. Graças a seus alertas sabemos que as mortes nas prisões de Bagdá e Guantánamo são acidentes de percurso comparadas à morte de um preso comum, disfarçado de político, num hospital de Cuba, em decorrência de uma greve de fome. São eles que nos tornam palatáveis os bombardeios dos Estados Unidos no Iraque e no Afeganistão, dizimando aldeias, e nos fazem encarar com horror a pretensão de o Irã fazer uso pacífico da energia nuclear, enquanto seu vizinho, Israel, tem a bomba atômica. São eles que nos induzem a repudiar o MST em sua luta por reforma agrária. Enquanto o latifúndio invade a Amazônia, desmata a floresta e usa mão de obra escrava. É isso que, na opinião de Kant, faz do público Hausvieh, “gado doméstico”, de modo que todos aceitem permanecer confinados no curral, cientes do risco de caminhar sozinho. Como gado, o consumidor busca sua segurança na identificação com o rebanho, capaz de tornar homogêneo seu comportamento, criando padrões universais de hábitos de consumo através de uma propaganda que imprime a sensação de ter o desejo correspondido pela mercadoria adquirida. E quanto mais cedo se inicia esse adestramento ao consumismo, maior o lucro. O ideal é cada criança com um televisor no próprio quarto.
Para se atingir esse objetivo é preciso incrementar uma cultura do egoísmo como regra de vida. Não é por acaso que quase todas as peças publicitárias se baseiam na exacerbação de um dos sete pecados capitais. Todos eles, sem exceção, são tidos como virtudes nessa sociedade neoliberal corroída pelo afã consumista. A inveja é estimulada no anúncio da família que possui um carro melhor que o de seu vizinho. A avareza é o mote das cadernetas de poupança. A cobiça inspira as peças publicitárias, do último modelo de telefone celular ao tênis de grife. O orgulho é sinal de sucesso dos executivos assegurados por planos de saúde eterna. A preguiça fica por conta das confortáveis sandálias que nos fazem relaxar ao sol. A luxúria é marca registrada dos jovens esbeltos e das garotas esculturais que desfrutam vida saudável e feliz ao consumirem bebidas, cigarros, roupas e cosméticos. Enfim, a gula envenena a alimentação infantil na forma de chocolates, refrigerantes e biscoitos, induzindo a crer que sabores são prenúncios de amores. Na sociedade neoliberal, a liberdade se restringe à variedade de escolhas consumistas; a democracia, em votar nos que dispõem de recursos milionários para bancar a campanha eleitoral; a virtude, em pensar primeiro em si mesmo e encarar o semelhante como concorrente. Esta a verdade proclamada pelos oráculos do sistema.

sábado, 3 de abril de 2010

É tempo de Ressurreição!

“Nos galhos secos de uma árvore morta
Onde ninguém jamais pudesse imaginar
O criador viu uma flor a brotar”.

A vida é feita de limites, de fronteiras que devemos transpor todos os dias. Estar diante de seus limites é como estar diante da necessidade de Deus. É como o filho, que diante do perigo grita pela presença do pai. Jesus é exemplo disso. Seu sofrimento e seu medo, na Sexta-Feira Santa, mostraram que ninguem está livre de limites. O limite de Jesus foi abertamente demonstrado por um grito que ecoou por todos os cantos da Terra: “Pai, Pai, por que me abandonou?” É o grito do filho que clama pelo socorro de seu pai. Jesus morreu, mas não esperava que algo grandioso acontecesse para livrá-lo daquele fim. Ele entregou-se inteiramente às mãos de Deus: “Pai, em tuas mãos eu entrego o meu espírito!”.
Aquele homem pregado na cruz não se prendeu à força da morte. Não transformou o resto de sua vida num calvário eterno, tampouco se revestiu de um espírito de vítima. No silencio da terra, as sementes precisam se entregar ao duro movimento da morte para que possam se transformar em frutos.
Após sua morte, o silencio tomou conta de toda a Terra. Os dias que se seguiram foram de inquietante escuridão. É a vida. É a morte. É a agonia de cada rosto. Reassumir a vida depois de uma tragédia de tamanha complexidade é sempre um desafio sofrido, dolorido. No Sétimo dia da semana, o dia dedicado a Deus, a certeza era de que muitos estavam machucados pela perda de Jesus, muitos mais estavam machucados com o fim de uma esperança.
Mas o sol estava voltando a brilhar, o tempo era de ressurreição. as mulheres que foram visitar o sepulcro de Jesus voltaram com outra certeza: O Senhor decidiu prosseguir! Era o início da ressurreição, o anúncio de que o túmulo estava vazio. A vida venceu a morte! “Enquanto houver sol... ainda haverá!”. Enquanto houver um sol brilhando, todas as noites são passageiras. A vitória da vida sobre a morte revelou que o Sol ainda brilha como outrora, com um significado todo novo: Agora conhecemos o Sol, o nosso Sol é Jesus, o Cristo, que Ressuscitou dos mortos e deu-nos um novo sentido para a vida.
Sua Ressurreição só foi possível à medida que ele amou o mundo. O amor é uma força capaz de nos levar a sacrifícios concretos, a ponto de tocarmos a nossa mais profunda humanidade. Sempre que amamos de verdade, extraímos o que temos de mais puro em nossa alma. O amor nos faz chegar a lugares nunca antes imaginados, no caso de Jesus, à Vida Nova.

Que o Amor seja a semente semeada no silencio da terra, colheremos o que a gente semear!

Uma Fraterna e Santa Páscoa!

quarta-feira, 31 de março de 2010

Quinta-Feira Santa

Quando não houver saída
Quando não houver mais solução
Ainda há de haver saída
Nenhuma idéia vale uma vida!

Quando não houver esperança
Quando não restar nem ilusão
Ainda há de haver esperança
Em cada um de nós
Algo de uma criança!

Quando não houver caminho
Mesmo sem amor, sem direção
A sós ninguém está sozinho
É caminhando que se faz o caminho!

Quando não houver desejo
Quando não restar nem mesmo dor
Ainda há de haver desejo
Em cada um de nós
Aonde Deus colocou!


Meus queridos,

Amanhã é Quinta-Feira Santa, dia no qual Jesus demonstrou, com gestos e palavras, qual a missão de cada um de nós, seus seguidores. Há em Jesus uma forte sinalização, que leva milhões a acreditar em um Novo Céu e em uma Nova Terra. Sinalização que persiste existir apesar dos rumos desoladores que a humanidade escolheu seguir.

Quinta-Feira Santa, no Evangelho de São João, é um prenúncio de um novo jeito de ser e de fazer Igreja: a diaconía, o serviço-doação daqueles que querem verdadeiramente lutar por esse Novum. Jesus estabelece uma nova relação com seus discípulos: "Não chamo mais vocês de servos, mas de amigos!". Nos outros três Evangelhos (Mateus, Marcos e Lucas), há a instituição da Eucaristia, a Nova e Eterna Aliança de Deus com a humanidade. Jesus surpreende a todos ao comparar-se ao pão repartido. Mesmo já tendo se comparado ao pão anteriormente, dessa vez foi diferente. Ele se comparava ao pão partido e re-partido, consumido por aqueles pelos quais morreu: É a semente de trigo que morre para dar frutos.
A Quinta-Feira Santa antecede o silêncio do Getsêmani, a hora máxima da angústia e da dúvida. "Pai, afasta de mim este cálice!". Momento no qual Jesus revelou plenamente sua humanidade, chorando de medo, apavorado, decepcionado. Momento da tristeza enraizada, da constatação de uma traição. Aqui o corpo goteja suor de sangue, é o ser humano no fundo do seu próprio poço. Da certeza do fracasso vem a coragem de assumir inteiramente suas dores e comprometer-se, ainda mais, com as dores do mundo: "Que não seja feita a minha vontade, mas a Tua!".

"Enquanto houver sol... ainda haverá!" A Quinta-Feira Santa traz a certeza da Fé. Enquanto houver um sol brilhando, todas as noites são passageiras. Dizia Pablo Picasso que "há pessoas que reduzem o sol a um mero pingo de tinta numa folha, porém, há aqueles que fazem de um simples pingo de tinta o próprio sol". Cada um de nós tem uma forma de ver o sol. Não importa qual seja essa forma, mas ele sempre estará lá, pronto para iluminar os nossos caminhos quando tudo estiver na escuridão. A Quinta-Feira Santa nos traz também a certeza de um Novo Sol, que será desvelado no domingo de Páscoa, após três dias de inquietante escuridão.

Uma Linda, Fraterna e Santa Quinta-Feira...

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