terça-feira, 14 de junho de 2011

Amor X Insegurança


O que move as pessoas?

Muitos dirão que é o amor. Sem dúvida alguma o amor é uma força que move os seres humanos, mas há outra pulsão capaz de gerar mais paixão do que o amor. Na verdade, o que move as pessoas – e o mundo – é a insegurança.

O amor causa a insegurança. Ou a falta de amor. Ou o medo de não ser amado. E quando ficamos inseguros, fazemos as piores coisas. Tudo, todas as coisas ruins, as atitudes erradas dos seres humanos, vem da insegurança, do medo de ser enganado, do medo de ser deixado para trás.

Exemplo clássico da insegurança causada pelo amor é Otelo, personagem de Shakespeare, que apesar de toda a fama e grandeza, denota demasiado medo de ser traído por Desdêmona. A dor memorável, ou a memória induzida pela dor, emana de uma ambivalência, ao mesmo tempo cognitiva e afetiva.

O que precisamos entender é que a pior traição é aquela que acontece dentro de nossa cabeça. No fundo estamos traindo a nós mesmos. Estamos traindo a nossa confiança, traindo a confiança que temos nas pessoas que amamos. E a pergunta que fica é simples: Como vencer a insegurança? Como revelar a verdadeira força do amor, que é muito mais forte que a insegurança?

Enquanto não conseguimos responder a essas questões, temos que lutar contra este sentimento, ao mesmo tempo tão humano e tão nocivo à humanidade, ou à humanização de nossas relações.

terça-feira, 26 de abril de 2011

O amor e a perfeição...

É imprescindível, em alguns momentos, parar um instante, refletir acerca das imagens que diariamente construímos em torno de nossas relações e, assim, nos permitir ao questionamento: “pode existir um amor perfeito?”.

As nossas idealizações dizem que sim. Tal ideia parece responder ao desejo que o ser humano tem de encontrar no outro a solução para o que nele é imperfeito. Na busca da cura das consequências de nossas escolhas e, principalmente, de nossa precariedade, procuramos buscar nas pessoas o remédio para as nossas incompletudes.

Na filosofia aprendemos a conceituar o termo perfeição como aquilo que não necessita complemento, mudança ou transformação, isto é, o que está pronto. Nesta perspectiva, chegamos à conclusão que nenhuma pessoa pode ser considerada perfeita, afinal, somos todos inacabados. Eis a frustração daqueles que esperam encontrar pessoas perfeitas com as quais possam construir suas relações humanas.

Não deixamos de sentir as consequências de nossas imperfeições, o que nos leva a assumir o processo de aperfeiçoamento, a partir das oportunidades de superação que encontramos pela vida. Assim, quando encontramos o outro, devemos considerar que ele também está vivenciando este processo. Mesmo sendo inacabados, imperfeitos, não estamos condenados a permanecer estáticos diante da vida e das experiências nela contidas. Não estamos condenados a viver eternamente com os nossos defeitos. Só assim, num encontro de imperfeitos, nasce o verdadeiro desejo de juntos lapidarem suas humanidades, buscando uma harmonia, uma integração a qual podemos chamar de amor.

Mas que para isso ocorra é preciso deixar de lado nossas idealizações. Porém somos constantemente levados a questionar a imperfeição do outro. É uma contradição existencial. Não somos perfeitos, mas queremos realidades perfeitas. A idealização nos retira do contato com a realidade. O conflito se estabelece ainda mais quando percebemos que pessoas que se sabem imperfeitas estão constantemente buscando pessoas perfeitas. Começam a projetar umas nas outras suas necessidades, seus vazios. É a partir disso que os cativeiros são criados, e deles nascem as invariáveis, os condicionamentos.

A pessoa inicia um processo de invenção do outro. E todos sabem que inventar é uma forma de estabelecer cativeiros, uma vez que a disposição de si fica ameaçada. Aquele que inventa (idealiza) retira do inventado o direito de ser o que realmente é. Idealizar é uma forma de negar a realidade. O que passa a importar não é mais o que se é, mas a máscara que se usa. Como escreveu Fernando Pessoa: “Fiz de mim o que não soube, e o que podia fazer de mim não o fiz. O dominó que vesti era errado. Conheceram-me logo por quem não era, e não desmenti, e perdi-me. Quando quis tirar a máscara, estava pregada à cara. Quando a tirei e me vi ao espelho, já tinha envelhecido”. O perigo deste cativeiro é que podemos nunca mais sair dele. A não autenticidade abre portas para os equívocos. Os outros nos idealizam e nós permitimos a idealização e suas inadequações. E, quando desejamos dizer a verdade, nem sempre temos a possibilidade.

O amor perfeito não existe, porque também não existem pessoas perfeitas. O que temos é a possibilidade de construir relações verdadeiras, autênticas. Máscaras não servem para mais nada além de esconder o que realmente existe. Enfeitar a realidade. Relações baseadas na verdade, no que concretamente existe, podem chegar mais próximo do que conhecemos como perfeição. Idealizações criam cativeiros que podem tornar-se definitivos. Mas podemos escolher em qual universo queremos viver o amor, nas ideias ou na humanidade. Temos a possibilidade de eternizar em nós o que realmente vale a pena e esquecer definitivamente aquilo que não vale...

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Quando eu sinto...

Ah! Como eu queria poder sentir calado. Mas minh’alma não cabe cá dentro, quer sair e gritar aos quatro cantos o que sente. “Sentir” é expressão usual, pois não há como denominar o que se passa com a alma. Sinto tal fenômeno na carne. No coração. Falar, expressar o que se passa, é a tentativa de remediar a dor. Ainda assim preciso aprender a sentir calado. Mesmo que haja uma inundação de lágrimas vinda dos meus olhos cansados, queria muito que eles não mostrassem o quanto eu sofro com as dores do “parto”. Partir dói muito. Maior dor é a de ser partido. Agora entendo o quanto dói. Até poderia pedir sincero perdão pelas cobranças feitas indevidamente, não considerando a dor alheia. Dor da qual não imaginava a intensidade.

Algo me consola? Não! Algo me faz aceitar os desdobramentos da vida. Escolhas. A vida é feita de escolhas. E nem sempre somos escolhidos. Eis a beleza inatingível da liberdade. E a liberdade é a única posse digna de amor. Eu amo a liberdade cuja ação fere minh’alma. Feridas são naturais naqueles que se arriscam no grandioso campo da liberdade. Se hoje sinto esta imensa dor é porque um dia escolhi, dotado da divina liberdade, arriscar-me numa escalada cujo resultado era certo. Mas arrisquei assim mesmo. A altura me venceu. A dificuldade do terreno me venceu. A falta de ar me venceu. A fraqueza humana me venceu. E eu despenquei diretamente ao chão. Feri-me. Mas, pela primeira vez em minha vida, fui suficientemente livre para arriscar-me. Não considerando as conseqüências. Valeu a pena.

Como me sinto? Inteiramente destruído pela frustração de não chegar ao topo da montanha. Há possibilidade de reconstrução? Sempre há! Seguirei firme até onde a esperança me levar. Quando não mais houver esperança serei mais um na multidão daqueles que a procuram. Mas enquanto ela existe... ainda procuro aprender a sentir calado.

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