sábado, 2 de outubro de 2010

Amigos e Santos: O jardim começa na plantação


"Somente onde há sepulturas há também ressurreições"

(Nietzsche)


Amigo. Santo. Gosto de conversar com meus amigos, pessoas com as quais tenho prazer de compartilhar a vida, ideias e reflexões. Não espero que eles pensem como eu, que estejam de acordo com minhas palavras. Seus rostos são diferentes do meu e se convivemos tranquilamente com essa diferença, porque desejar que nossas ideias sejam iguais? Além dos rostos, nossas experiências são imensamente diferentes, o que faz da relação uma construção. Experimentar a diferença é o que realça a verdadeira amizade. Penso também nas relações dos casais de namorados e casados, quantas delas chegaram ao fim simplesmente porque faltou o prazer de compartilhar ideias? A paixão passa rápido demais e não há amor que sobreviva apenas de sentimentos subjetivos, sem a presença do diálogo, da partilha. Não basta compartilhar a vivencia na mesma casa, quando a mais importante casa – a alma – está vazia e desabitada.

Santos – para a Igreja Católica – são pessoas comuns que, alimentadas pela fé, testemunharam o amor de Deus entre os homens e tornaram-se dignas de serem exemplos para toda comunidade dos fiéis. As esculturas dos santos trazem imagens de pessoas tristes, figuras sofredoras e melancólicas. Há uma explicação para isso: grande parte dos santos foi assassinada em nome da fé, por isso as imagens com feridas, espadas e punhais. Penso diferente neste ponto. Se alguém sacrificou a própria vida pela fé, o martírio torna-se glória e o sofrimento, eterna felicidade. Não que a morte deva ser desejada por aqueles que testemunham o Reino de Deus, mas não vejo Jesus de Nazaré, torturado e assassinado, com feição triste por ter dado a vida pela humanidade. O próprio Jesus afirmava que o grão que não morre não frutifica. Também o filósofo Nietzsche acreditava nisso: “Somente onde há sepulturas há também ressurreições” (Assim falou Zaratustra). A palavra “Santo” tem um significado muito bonito, é aquele que foi separado do profano, tornando-se sagrado. Os santos deveriam ter imagens mais mansas e calmas, com rostos felizes por terem encontrado o caminho do sagrado. Rubem Alves diz que “um santo seria uma pessoa que planta jardins e vive neles”. O jardim é no que devemos transformar o mundo, plantando rosas, orquídeas, hortênsias... flores que perfumam nossas vidas. Mas, continua Rubem Alves, os olhos dos santos da Igreja não sorriem para os jardins. Eles vivem neste vale de lágrimas, habitado pelos degredados filhos de Eva, e olham incessantemente para o Céu, chorando e expressando seu espanto para com a criação: “Por quê, meu Deus?” – como se o Criador tivesse culpa pelo que transformamos seu lindo jardim.

Fico feliz quando tenho a oportunidade de compartilhar a minha vida com meus amigos. Falo muito de muitas coisas, mas falo principalmente sobre o que minha alma está sentindo. Tenho feridas que precisam ser cicatrizadas e meus amigos são remédios para minhas dores. E quando são eles que precisam de remédio, meu sorriso e meu abraço estão sempre abertos para acolhê-los. Talvez, o que falta aos que escolhem as feições e imagens dos santos é a percepção de que eles encontraram o sorriso e o abraço de Deus. Olhar e me ver nos olhos de um amigo torna-me feliz. Vejo-me nos olhos do outro. Percebo que também estou nos olhos de Deus. O sofrimento das pessoas se dá por terem se afastado dos outros, do espaço no qual encontrariam Deus. É o encontro que eu teço todos os dias com meus amigos, com todos os seus absurdos, que me salva. A experiência de sentir-se amado tem o poder de dissolver todos os absurdos. Também quero ser santo, desejo isso todos os dias, e morreria defendendo o que considero Sagrado. Quero ser santo junto dos meus amigos, olhando em seus olhos, trocando ideias, compartilhando o pão. E a imagem que espero que levem e tenham de mim é de um rosto sorridente e feliz, de quem experimentou o amor de Deus no olhar, no sorriso e no amor dos meus amigos. O mundo está a nossa frente, cabe a nós plantar o jardim.

sábado, 11 de setembro de 2010

O Caderno



Composição: Toquinho / Lupicínio Roderigues


Sou eu que vou seguir você
Do primeiro rabisco
Até o be-a-bá.
Em todos os desenhos
Coloridos vou estar
A casa, a montanha
Duas nuvens no céu
E um sol a sorrir no papel...

Sou eu que vou ser seu colega
Seus problemas ajudar a resolver
E acompanhar nas provas
Bimestrais, você vai ver
Serei, de você, confidente fiel
Se seu pranto molhar meu papel...

Sou eu que vou ser seu amigo
Vou lhe dar abrigo
Se você quiser
Quando surgirem
Seus primeiros raios de mulher
A vida se abrirá
Num feroz carrossel
E você vai rasgar meu papel...

O que está escrito em mim
Comigo ficará guardado
Se lhe dá prazer
A vida segue sempre em frente
O que se há de fazer...

Só peço, a você
Um favor, se puder
Não me esqueça
Num canto qualquer...

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Pedras lapidadas

Assim como a pedra mais preciosa, para chegar ao seu formato mais bonito, precisa ser lapidada, também o ser humano carece ser trabalhado. “Lapidar” o ser humano é um trabalho difícil e sensível, e podemos chamá-lo de construção de sentido. Dar sentido às coisas é ato de amor. O “belo” da pedra preciosa não pode se limitar ao seu atrativo estético e exterior. O “belo” precisa ser percebido nos detalhes, descobrir que algo daquela beleza está além das suas formas, algo que chama, que fala à minha experiência de vida, como se aquela beleza fizesse falta ao imperfeito que sou.

Ato de amor. O amor é a capacidade de ver o outro de forma diferente. Em meio à multidão você percebe o outro, ele se torna especial, tem um sentido para sua vida. O ato de amor, que é dar sentido às coisas, é esse “retirar” o outro da multidão, separá-lo do comum para um lugar especial. Necessariamente, amar é descobrir a sacralidade do outro. Descobrir, perceber o sentido que as coisas têm para mim é lapidar o diamante sem forma, dando-lhe contornos indizíveis. É deixar de lado a superfície e atingir o mais profundo.

A vida humana é um imenso garimpo, onde os garimpeiros procuram as pedras mais preciosas. Nela os diamantes ainda permanecem preservados. O amor é revelação, inauguração, tem o poder de transformar aquilo que é velho em novidade. Mudar a pedra sem brilho no mais brilhante tesouro. Pode parecer surpreendente, e certo que é, mas o amor tem o poder de retirar a lasca, de curar a ferida, de imprimir um novo sentido ao que antes era apenas pedra, dura e suja. É o milagre da transubstanciação, quando, por força do amor, podemos fazer uma realidade ser outra. O ser humano é assim, quando tocado pela força transformadora do amor, abre-se para uma nova realidade. Mas o que nele é transformado, os olhos humanos despreocupados não conseguem ver. É algo que não podemos compreender, é o humano sendo banhado pelo divino, é o sentido daquilo que amamos nos falando, dando-nos novo sentido para a vida.


Visitas