domingo, 20 de junho de 2010

A corda sensível do coração dos jovens: É possível!

“Em todo jovem, mesmo no mais rebelde, existe um ponto acessível ao bem; o primeiro dever do educador é descobrir este ponto, esta corda sensível do coração e tirar proveito disto”. O autor desta frase é considerado um dos maiores educadores de todos os tempos: São João Bosco.

Para aqueles educadores que acreditam no projeto de Dom Bosco, educar é estar presente na vida dos educandos, é amar os jovens e fazer com que eles se dêem conta de que são amados. Contudo, os que se empenham em educar nem sempre conseguem estabelecer laços com os que precisam ser educados e, mais, não conseguem encontrar o “ponto acessível” do qual falava Dom Bosco.

Apesar das dificuldades, a responsabilidade do educador é a de estar atento aos “discursos” existentes em meio às tribos juvenis. Tais discursos estão na família, na rua, na escola, nas resistências manifestas, nas preferências, na vestimenta e no comportamento, nos modos de viver a afetividade, nos grupos, nos medos que expressam, nas pichações, nas respostas que encontram para as perguntas que se fazem, no fenômeno religioso, na economia, na política, nas organizações das quais participam, enfim, nos “pátios” que Dom Bosco citava como lugar do agir-pedagógico dos educadores.

Os educadores não são reféns dos discursos juvenis, mas têm a função de contextualizar e problematizar, de mediar a construção do conhecimento, de ampliar o universo cultural e apontar possíveis saídas para as crises. Podemos dizer que estamos sendo convidados para uma honradez não só com a verdade, mas com a própria realidade. Recordo, neste contexto, comentários e reflexões que Jon Sobrino fez a partir do terremoto de El Salvador, em 2001. Ele fala do deixar a realidade falar e relembra Karl Rahner dizendo que “a realidade quer tomar a palavra”, isto é, “se a palavra se fez realidade (carne, sarx), a realidade quer fazer-se palavra”, sendo importante que se escute, também, a “geografia” onde se escuta a palavra da realidade. Segundo Sobrino, “chegar a ser humano é dar voz e palavra à realidade, quando esta é silenciada e oprimida, colaborar com sua balbuciação para que se transforme em palavra clara”. Falar em emergência e percepção de valores na juventude é falar de um terremoto em que ela está mergulhada como grito silenciado.

Quando a juventude acende a fogueira das manifestações radicais, sejam em protestos pseudopolíticos ou em infrações às leis civis, há, em todos esses casos, um grito abafado que só vem à tona através de ações que dêem visibilidade e causem certo transtorno a quem o grito é destinado. Em vista da juventude empobrecida de nossas periferias, o grito tem como destino a sociedade injusta e excludente que marginaliza seus sonhos e esperanças, contudo, ele é silenciado por outra parte da sociedade, que engana e escraviza, aparecendo, entre outros, nos rostos de partidos políticos, comunidades religiosas e sistemas educacionais falidos e vendidos.

Cabe aos educadores a difícil tarefa de transpor tudo aquilo que é sintoma deste grito e agir diretamente em sua causa. Todo ato maquiado por rebeldia trás em si um agente propulsor, que o leva a tal por não haver possibilidade de gritar contra seus “opressores”. Ao encontrarmos esta causa, talvez, poderemos também encontrar a “corda sensível” da qual falava Dom Bosco e, para isso, é necessário que haja afinidade, familiaridade entre educadores e educandos, ao ponto destes verem o educador como aquele para quem podem gritar sem serem punidos, mostrar suas fraquezas e não serem lesados. Familiaridade é sinônimo de confiança e essa só existe na medida em que o jovem se sente amado, cuidado e protegido.

“Não basta amar os jovens; é preciso que eles se sintam amados!” Dom Bosco sabia disso e, por isso, foi um grande educador, além de grande homem. Nós, educadores, precisamos ter coragem de agir com ousadia e ternura como ele agiu, para tocarmos, ao menos por alguns segundos, os corações de nossos educandos.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Oráculos da verdade

Por Frei Betto

Cada vez mais, as pessoas deixam de pensar por sua própria cabeça.


O filósofo alemão Emmanuel Kant, num de seus brilhantes textos – “O que é o Iluminismo?” – sublinha um fenômeno que na cultura televisual que hoje impera é cada vez mais generalizado: as pessoas deixam de pensar por si mesmas. Preferem se colocar sob proteção dos “oráculos da verdade”: a revista semanal, o telejornal, o patrão, o chefe, o pároco ou o pastor. Esses os guardiões da verdade que velam para não nos permitir incorrer em “equívocos”. Graças a seus alertas sabemos que as mortes nas prisões de Bagdá e Guantánamo são acidentes de percurso comparadas à morte de um preso comum, disfarçado de político, num hospital de Cuba, em decorrência de uma greve de fome. São eles que nos tornam palatáveis os bombardeios dos Estados Unidos no Iraque e no Afeganistão, dizimando aldeias, e nos fazem encarar com horror a pretensão de o Irã fazer uso pacífico da energia nuclear, enquanto seu vizinho, Israel, tem a bomba atômica. São eles que nos induzem a repudiar o MST em sua luta por reforma agrária. Enquanto o latifúndio invade a Amazônia, desmata a floresta e usa mão de obra escrava. É isso que, na opinião de Kant, faz do público Hausvieh, “gado doméstico”, de modo que todos aceitem permanecer confinados no curral, cientes do risco de caminhar sozinho. Como gado, o consumidor busca sua segurança na identificação com o rebanho, capaz de tornar homogêneo seu comportamento, criando padrões universais de hábitos de consumo através de uma propaganda que imprime a sensação de ter o desejo correspondido pela mercadoria adquirida. E quanto mais cedo se inicia esse adestramento ao consumismo, maior o lucro. O ideal é cada criança com um televisor no próprio quarto.
Para se atingir esse objetivo é preciso incrementar uma cultura do egoísmo como regra de vida. Não é por acaso que quase todas as peças publicitárias se baseiam na exacerbação de um dos sete pecados capitais. Todos eles, sem exceção, são tidos como virtudes nessa sociedade neoliberal corroída pelo afã consumista. A inveja é estimulada no anúncio da família que possui um carro melhor que o de seu vizinho. A avareza é o mote das cadernetas de poupança. A cobiça inspira as peças publicitárias, do último modelo de telefone celular ao tênis de grife. O orgulho é sinal de sucesso dos executivos assegurados por planos de saúde eterna. A preguiça fica por conta das confortáveis sandálias que nos fazem relaxar ao sol. A luxúria é marca registrada dos jovens esbeltos e das garotas esculturais que desfrutam vida saudável e feliz ao consumirem bebidas, cigarros, roupas e cosméticos. Enfim, a gula envenena a alimentação infantil na forma de chocolates, refrigerantes e biscoitos, induzindo a crer que sabores são prenúncios de amores. Na sociedade neoliberal, a liberdade se restringe à variedade de escolhas consumistas; a democracia, em votar nos que dispõem de recursos milionários para bancar a campanha eleitoral; a virtude, em pensar primeiro em si mesmo e encarar o semelhante como concorrente. Esta a verdade proclamada pelos oráculos do sistema.

sábado, 3 de abril de 2010

É tempo de Ressurreição!

“Nos galhos secos de uma árvore morta
Onde ninguém jamais pudesse imaginar
O criador viu uma flor a brotar”.

A vida é feita de limites, de fronteiras que devemos transpor todos os dias. Estar diante de seus limites é como estar diante da necessidade de Deus. É como o filho, que diante do perigo grita pela presença do pai. Jesus é exemplo disso. Seu sofrimento e seu medo, na Sexta-Feira Santa, mostraram que ninguem está livre de limites. O limite de Jesus foi abertamente demonstrado por um grito que ecoou por todos os cantos da Terra: “Pai, Pai, por que me abandonou?” É o grito do filho que clama pelo socorro de seu pai. Jesus morreu, mas não esperava que algo grandioso acontecesse para livrá-lo daquele fim. Ele entregou-se inteiramente às mãos de Deus: “Pai, em tuas mãos eu entrego o meu espírito!”.
Aquele homem pregado na cruz não se prendeu à força da morte. Não transformou o resto de sua vida num calvário eterno, tampouco se revestiu de um espírito de vítima. No silencio da terra, as sementes precisam se entregar ao duro movimento da morte para que possam se transformar em frutos.
Após sua morte, o silencio tomou conta de toda a Terra. Os dias que se seguiram foram de inquietante escuridão. É a vida. É a morte. É a agonia de cada rosto. Reassumir a vida depois de uma tragédia de tamanha complexidade é sempre um desafio sofrido, dolorido. No Sétimo dia da semana, o dia dedicado a Deus, a certeza era de que muitos estavam machucados pela perda de Jesus, muitos mais estavam machucados com o fim de uma esperança.
Mas o sol estava voltando a brilhar, o tempo era de ressurreição. as mulheres que foram visitar o sepulcro de Jesus voltaram com outra certeza: O Senhor decidiu prosseguir! Era o início da ressurreição, o anúncio de que o túmulo estava vazio. A vida venceu a morte! “Enquanto houver sol... ainda haverá!”. Enquanto houver um sol brilhando, todas as noites são passageiras. A vitória da vida sobre a morte revelou que o Sol ainda brilha como outrora, com um significado todo novo: Agora conhecemos o Sol, o nosso Sol é Jesus, o Cristo, que Ressuscitou dos mortos e deu-nos um novo sentido para a vida.
Sua Ressurreição só foi possível à medida que ele amou o mundo. O amor é uma força capaz de nos levar a sacrifícios concretos, a ponto de tocarmos a nossa mais profunda humanidade. Sempre que amamos de verdade, extraímos o que temos de mais puro em nossa alma. O amor nos faz chegar a lugares nunca antes imaginados, no caso de Jesus, à Vida Nova.

Que o Amor seja a semente semeada no silencio da terra, colheremos o que a gente semear!

Uma Fraterna e Santa Páscoa!

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